Para muitos estudantes que moram longe dos centros urbanos no Amapá, o dia começa antes do amanhecer. A ida à escola pode envolver caminhadas, viagens por estradas não pavimentadas, deslocamentos em barcos pequenos e espera pelo transporte escolar. Em comunidades ribeirinhas, indígenas, quilombolas e rurais, estudar exige conciliar o calendário escolar com as condições de acesso e as características do território.
A rotina não é igual em todo o estado. Há alunos que frequentam escolas próximas de suas comunidades e outros que precisam percorrer distâncias maiores para chegar às etapas finais do ensino fundamental ou ao ensino médio. Quando a unidade mais próxima não oferece determinada série, o deslocamento passa a fazer parte do cotidiano escolar.
O caminho até a sala de aula
Em áreas cortadas por rios e igarapés, o transporte fluvial é uma das principais formas de acesso às escolas. Em 2022, a Secretaria de Estado da Educação informou que 7.156 estudantes ribeirinhos eram atendidos por 463 transportes fluviais. As embarcações utilizadas no serviço, conhecidas como catraias, contavam com coletes salva-vidas e outros equipamentos de segurança, segundo o governo estadual.
Naquele período, a secretaria relatou que estudantes de comunidades próximas à Escola Quilombola Estadual David Miranda dos Santos, na zona rural de Macapá, dependiam das embarcações para chegar às aulas. Em alguns casos, o trajeto incluía a busca de alunos em diferentes pontos antes da chegada à escola.
Nas regiões onde o acesso é feito por estradas, a distância, as chuvas e as condições do terreno também influenciam o tempo de viagem. A regularidade do transporte é essencial para evitar faltas e reduzir o risco de abandono, especialmente entre alunos que dependem exclusivamente desse serviço.
Estudo e vida comunitária
Além do deslocamento, os estudantes precisam organizar o tempo entre as aulas, as atividades domésticas e, em alguns casos, o apoio às famílias em tarefas relacionadas à agricultura, à pesca ou ao extrativismo. Essa realidade exige que a escola considere os horários, os períodos de chuva e os costumes de cada comunidade.
Nas escolas indígenas e quilombolas, o ensino também precisa dialogar com a identidade, a história e os conhecimentos tradicionais dos territórios. O Ministério da Educação estabelece que a oferta educacional deve respeitar as especificidades culturais dessas populações e que, quando houver necessidade de transporte, o percurso deve ser o menor possível e realizado em condições seguras.
Desafios para permanecer na escola
O acesso físico é apenas uma parte do problema. A distância dos centros urbanos pode dificultar a chegada de professores, materiais didáticos, alimentação escolar e serviços de apoio. Em 2024, o Governo do Amapá informou que discutia com lideranças indígenas medidas para transportar professores, materiais e alimentos até comunidades mais afastadas.
Também há desafios relacionados à continuidade dos estudos. Em 2022, o estado ampliou o programa Travessia para escolas do campo, indígenas e quilombolas, com foco na redução da distorção entre idade e série e do abandono escolar.
Para os estudantes, cada viagem até a escola representa mais do que um deslocamento. É uma etapa necessária para garantir o direito à educação em um estado onde rios, florestas e grandes distâncias fazem parte da vida cotidiana. A permanência desses alunos na escola depende da combinação entre transporte seguro, estrutura adequada, professores preparados e políticas que reconheçam a realidade de cada comunidade.
Fontes: informações da Secretaria de Estado da Educação do Amapá e do Ministério da Educação.








