quarta-feira, 4 de novembro de 2026
CIDADES

Serra do Navio guarda marcas da história da mineração no Amapá

Serra do Navio preserva edificações, estruturas e memórias ligadas à exploração do manganês pela Icomi, atividade que transformou a economia e a ocupação do Amapá a partir da década de 1950.

A história da mineração em Serra do Navio está diretamente ligada à exploração do manganês no Amapá e à formação de uma das mais conhecidas cidades planejadas da Amazônia. A partir da década de 1950, a região passou a receber estruturas industriais, ferrovia, porto e vilas operárias construídas para atender ao projeto da Indústria e Comércio de Minérios, a Icomi.

O empreendimento alterou a dinâmica econômica e demográfica do então Território Federal do Amapá. Também deixou marcas que permanecem na paisagem, na arquitetura e na memória dos moradores, mesmo depois do encerramento das atividades de mineração.

A descoberta das jazidas de manganês

As primeiras informações sobre a presença de manganês no vale do rio Amapari surgiram antes da criação do Território Federal do Amapá, em 1943. Em 1945, amostras coletadas na região foram identificadas como minério de alto teor. A confirmação das jazidas ampliou o interesse do governo brasileiro e de empresas nacionais e estrangeiras.

Em 1947, a Icomi obteve o direito de explorar os depósitos de manganês da Serra do Navio. A empresa iniciou a implantação de uma estrutura de grande escala, que incluía áreas de extração e beneficiamento, a Estrada de Ferro do Amapá e instalações portuárias em Santana para o escoamento da produção.

Uma cidade planejada para a mineração

A Vila Serra do Navio foi construída entre o fim da década de 1950 e o início dos anos 1960 para abrigar trabalhadores da companhia e seus familiares. O projeto urbanístico e arquitetônico foi elaborado pelo arquiteto Oswaldo Bratke, que adotou soluções adaptadas ao clima amazônico e à integração com a vegetação.

O núcleo urbano contava com residências, escola, hospital, cinema, áreas esportivas, espaços de convivência, saneamento básico, água tratada e fornecimento de energia. A organização refletia o modelo de company town, ou cidade de companhia, em que uma única empresa concentrava o controle da atividade econômica e de parte dos serviços oferecidos à comunidade.

A estrutura diferenciava a vila de outros núcleos urbanos do interior amazônico naquele período. Ao mesmo tempo, a dependência em relação à mineração fazia com que a vida local estivesse vinculada ao desempenho da empresa e à disponibilidade do minério.

Patrimônio e memória

O ciclo de exploração do manganês se estendeu por várias décadas. A reserva se esgotou antes do previsto, e a Icomi deixou a região no fim dos anos 1990. Em maio de 1992, Serra do Navio tornou-se município, consolidando uma nova etapa administrativa para a localidade.

Em abril de 2010, a Vila Serra do Navio foi tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) como Patrimônio Cultural Brasileiro. O reconhecimento considera os valores históricos, arquitetônicos, urbanísticos e paisagísticos do conjunto.

Segundo o Iphan, a vila mantém características que a distinguem na história da ocupação da Região Norte e na arquitetura moderna brasileira, apesar das transformações provocadas pela falta de conservação e por intervenções posteriores.

O legado depois das minas

As marcas deixadas pela mineração não se resumem às construções. A atividade atraiu trabalhadores de diferentes partes do país, impulsionou a criação de infraestrutura e projetou o Amapá no comércio internacional de minérios. Também deixou desafios relacionados à conservação do patrimônio, à transição econômica e aos impactos ambientais associados à exploração mineral.

Hoje, Serra do Navio reúne vestígios de um projeto industrial que ajudou a definir a história econômica do Amapá. A antiga vila operária, a paisagem e as memórias dos moradores formam um registro material de como a mineração transformou uma área da floresta em um dos mais singulares conjuntos urbanos do país.