Calçoene, no litoral norte do Amapá, abriga um dos mais conhecidos sítios arqueológicos da região amazônica. O sítio arqueológico Rêgo Grande I, também chamado de megalítico de Calçoene, é formado por grandes placas de granito organizadas em uma disposição circular no alto de uma área elevada.
A estrutura ficou conhecida popularmente como “Stonehenge do Amapá”, em referência ao monumento pré-histórico localizado na Inglaterra. A comparação, no entanto, serve apenas como aproximação visual. Os monumentos foram construídos em contextos históricos e culturais diferentes, por povos distintos.
Rochas organizadas em círculo
De acordo com o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), o sítio é composto por imensas placas de granito cuidadosamente dispostas. Algumas rochas chegam a medir cerca de quatro metros de comprimento.
Estudos citados por instituições de pesquisa indicam que a área circular tem aproximadamente 30 metros de diâmetro. A idade estimada para o conjunto varia conforme a pesquisa e os vestígios analisados, mas o local é associado à ocupação indígena pré-colonial ocorrida há centenas ou mais de mil anos.
Possível relação com a observação do céu
O posicionamento das pedras levou arqueólogos a considerar a hipótese de que o espaço tenha sido utilizado para observar movimentos do Sol e marcar períodos do ano. Por isso, o local passou a ser relacionado à arqueoastronomia, área que estuda a relação entre sociedades antigas e fenômenos celestes.
Uma das rochas apresenta alinhamento que pode produzir efeitos de sombra associados ao solstício. Essa característica é uma das razões pelas quais o sítio recebeu o nome de Parque Arqueológico do Solstício. Ainda assim, a interpretação sobre o uso da estrutura não é tratada como uma conclusão definitiva. As pesquisas continuam importantes para compreender a função exata do monumento.
Vestígios de práticas cerimoniais
As investigações também identificaram poços escavados e urnas funerárias em diferentes arranjos. Para o Iphan, esses elementos podem indicar que o espaço não tinha apenas uma função relacionada à observação astronômica, mas também poderia integrar um complexo de caráter cerimonial.
O sítio é conhecido nos estudos acadêmicos como AP-CA-18 ou Rêgo Grande I. As escavações realizadas na área encontraram vestígios de cerâmica e estruturas associadas a práticas funerárias. Esses materiais ajudam a reconstruir aspectos da vida social, religiosa e simbólica dos povos que habitaram o norte do Amapá antes da chegada dos europeus.
Preservação e pesquisa
O patrimônio arqueológico é protegido pela legislação brasileira e sua gestão está sob responsabilidade do Iphan. O órgão informa que o Amapá possui sítios de diferentes tipos, incluindo áreas com pinturas rupestres, vestígios de habitação, urnas funerárias e estruturas megalíticas.
Em 2024, o Iphan e o Governo do Amapá anunciaram um protocolo de intenções para estruturar o Parque do Solstício de Calçoene. A proposta prevê a musealização do sítio, ações de preservação e melhores condições para atividades de educação patrimonial, turismo cultural e pesquisa.
Além do valor científico, o megalítico reforça a presença histórica dos povos indígenas na formação da Amazônia. Suas pedras não representam apenas uma paisagem incomum, mas um registro material de conhecimentos, rituais e formas de organização social que ainda são investigados pela arqueologia.








